Quais os possíveis malefícios de uma escolha irrefletida pela monogamia?
É óbvio que uma opção espontânea e consciente pela monogamia não traz malefício nenhum pra ninguém e pra nenhuma relação. A questão é saber se essa escolha está sendo feita de forma realmente consciente e espontânea — ou de forma compulsória, “por livre e espontânea pressão”.
A escolha “por livre e espontânea pressão”
Vivemos em um mundo mononormativo: muitas vezes, quando iniciamos uma relação, não nos é dada a opção de escolha. É muito raro que um casal iniciando um namoro pare para discutir se prefere uma relação monogâmica ou não-monogâmica. Em todas as vezes que iniciei um relacionamento, nunca me fizeram essa pergunta — e acredito que nunca te perguntaram também.
Todos nós viemos de uma tradição de monogamia compulsória e vitalícia, dada como o correto. Não sobra muito espaço para refletir seriamente se isso é o melhor pra gente — simplesmente repetimos o que foi aprendido. Como bem explicou a escritora Laura Kipnis: “Na maioria das vezes as pessoas optam pela monogamia ao mesmo tempo em que a consideram uma obrigação. Há tanta pressão social nesse terreno que é difícil separar o que é opção pessoal do que é imposição.”
Traição como sintoma
Uma das consequências mais comuns dessa escolha compulsória é a traição. Segundo diversas pesquisas, o índice de traição nos relacionamentos costuma girar em torno de 50% — e podemos imaginar que muitos não admitem a traição tão facilmente quando perguntados. Se o número de pessoas traindo é tão alto, isso mostra que grande parte não está muito adaptada à exigência de exclusividade monogâmica.
Quando a traição ocorre, ela implica um segredo — e todo segredo gera um afastamento emocional, porque há algo que eu vivo que não pode ser compartilhado com o outro. Além disso, quem trai pode se sentir muito culpado, e quem é traído, ao descobrir, pode sair muito machucado do processo. Essa escolha irrefletida pela monogamia pode, sim, trazer prejuízos às relações e às pessoas.
O desgaste da vida sexual
Outra consequência dessa imposição cultural é que muitos casais acabam parando de interagir sexualmente com o tempo — e, como não podem se satisfazer com outras pessoas, desistem da vida sexual, o que por si só é algo muito negativo.
Freud já dizia, há mais de um século: “(…) as relações sexuais no casamento só são satisfatórias durante alguns poucos anos (…) Após esses três, quatro ou cinco anos, o casamento torna-se, pelo menos em relação à satisfação das necessidades sexuais, um fracasso.” Seu discípulo Wilhelm Reich seguiu na mesma linha: “É preciso aprender a ver claramente o problema do casamento. (…) As necessidades sexuais podem ser satisfeitas com um e mesmo companheiro durante algum tempo apenas.”
Então, se você está tendo dificuldade para se manter monogâmico em uma relação, acredite: talvez isso não seja sua culpa. A natureza nos projetou de modo a valorizar fortemente a variação sexual. Aliás, gostamos de variação em todas as esferas da vida — os casais gostam de variar o destino da viagem e o restaurante de vez em quando. Por que não haveriam de gostar de variar de corpos eventualmente?
Há ainda outra consequência da monogamia compulsória: um dos parceiros pode acabar responsabilizando o outro pela própria frustração sexual, já que se sente castrado pela outra pessoa. Quando isso ocorre, pode surgir uma vontade de se vingar do outro — certamente um dos motivos pelos quais o casamento costuma transformar pessoas agradáveis em verdadeiros tiranos domésticos.
Criar o próprio modelo
Mais do que nunca, precisamos mudar essa cultura de seguir caminhos irrefletidos apenas por convenção social. Devemos ser encorajados a nos questionar sobre o que melhor atende às nossas necessidades. Não dá pra encaixar todo mundo no mesmo modelo, porque as pessoas são muito diferentes — e cada singularidade precisa ser levada em conta, por uma questão de respeito, de amor. Cada qual precisa criar um modelo de relacionamento que se encaixe nas suas necessidades, e não o contrário: se forçar a caber no modelo pré-estabelecido pode ser algo bastante opressor.