Porque o sexo é uma parte natural e muito gratificante da jornada humana — é a partir dessa premissa que nasce a proposta de uma cultura sexual positiva. Neste artigo, reunimos as principais reflexões sobre o que é essa proposta, por que precisamos dela com urgência e quais desafios ainda temos pela frente.
Do que se trata?
Cultura sexual positiva é “uma atitude em relação à sexualidade humana que considera todas as atividades sexuais consensuais como fundamentalmente saudáveis e prazerosas, encorajando o prazer sexual e a experimentação” (Allena Gabosch).
Cultura sexual positiva também pode ser definida como “a filosofia cultural que entende a sexualidade como uma força potencialmente positiva na vida de alguém e pode, é claro, ser contrastada com a cultura sexual negativa, que vê o sexo como problemático, perturbador e perigoso. A cultura sexual positiva permite e de fato celebra a diversidade sexual, os diferentes desejos e estruturas de relacionamento e as escolhas individuais baseadas no consentimento” (Carol Queen).
A educação sexual positiva busca publicar e difundir reflexões que ajudem nessa mudança de mentalidade coletiva, tendo como referência iniciativas como a americana Sex Positive World, organização voluntária fundada por Gabriella Cordova em Oregon, nos Estados Unidos, que conta atualmente com quase 7.000 membros distribuídos em doze cidades e cinco países.
Por que necessitamos urgentemente de uma Cultura Sexual Positiva?
Você já parou pra pensar no motivo pelo qual costumamos xingar as pessoas utilizando palavras de cunho sexual?
Vejamos alguns exemplos simples… Quando chamamos alguém de “pentelho” ou dizemos que fulano é um “escroto”, por que utilizamos estes termos e por que eles teriam uma função linguística pejorativa? Pelo simples e único motivo de estarem associados anatomicamente aos órgãos sexuais. Isso, por si só, já é suficiente para dar uma conotação pejorativa a uma palavra!
Em inglês, por exemplo, é comum se utilizar a expressão “he is such a dick”. Neste caso, a palavra dick, cuja tradução oficial seria pênis, ganha na expressão inglesa o significado de “idiota” ou “babaca”. Novamente vemos que bastou se utilizar uma palavra anatomicamente ligada à sexualidade para transformá-la em uma expressão pejorativa.
Outras expressões são até mais conhecidas, como quando mandamos alguém “tomar no c…” ou “se fud…”, ou dizemos que fulano é um “filho da p…”. Os exemplos são inúmeros e praticamente todos os palavrões que utilizamos estão em algum nível atrelados à sexualidade. E por que será que é assim? Se todos nós somos originários de uma atividade sexual, por que essa função biológica que deveria ser honrada se converteu em algo tão depreciativo?
Nossa origem sexual se revela, por exemplo, na palavra genital, que vem do latim genitale, aquilo que gera… neste caso, gera a vida de cada ser humano neste planeta. A palavra sêmen, por exemplo, tem a mesma origem da palavra semente e, curiosamente, na linguagem popular se converteu no termo “porra”!!
Pela linguagem também é evidente que a sexualidade humana passou a ser uma forma de canalização da violência e da agressão. É comum utilizarmos a expressão “seu arrombado” para ofender alguém, ou então “seu corno”, “seu veado”, “sua bicha” etc. Todos estes xingamentos vinculados à sexualidade são uma forte evidência de que vivemos numa cultura sexual negativa, onde a sexualidade carrega uma conotação fortemente pejorativa e denegrante!
Vejamos também alguns termos comuns utilizados para se referir aos órgãos genitais: “cacete”, “pau”, “caralho”. Peguemos o exemplo da palavra “pau”, que comumente é utilizada para se referir ao pênis. Todos nós sabemos o que é um pau, mas vejamos como este termo é definido pelo dicionário Houaiss: “1) qualquer madeira, ou pedaço dela (bastão, lasca, vara, viga etc.); 2) castigo corporal, surra.” Ou seja, pau é algo insensível, morto, que é utilizado para castigar o outro!
A linguagem reflete diretamente o universo psíquico das pessoas e por isso o fato ressaltado merece atenção. Esses termos refletem o inconsciente coletivo da nossa sociedade e demonstram a relação negativa que inconscientemente carregamos em relação ao sexo. No mundo real, toda essa violência atrelada à sexualidade se manifesta através dos crimes sexuais, dos abusos de menores, assédios, estupros, homofobia, transfobia, agressão às trabalhadoras do sexo etc.
As palavras também denunciam a objetificação que fazemos das pessoas quando vamos pra esfera sexual, transformando pessoas em coisas, objetos para fim de consumo. Por isso vemos expressões como: “peguei fulana na festa”, “comi 5 nesse carnaval”, “dei para 2 ontem”. A coisa mais comum, por exemplo, é chamar uma mulher de “gostosa”, como se ela fosse de fato algo comestível, consumível. Através dessa mentalidade consumista e objetificante, as pessoas são simbolicamente retalhadas em pedaços, assim como fazemos num açougue: “que bunda maravilhosa”, “que peito lindo”, “que coxa”, “que pernão”, “que rabo”.
Toda a análise linguística apresentada aqui evidencia, de forma inequívoca, que nós desenvolvemos um forte antagonismo ao sexual — e talvez isso tenha muitas consequências práticas para o ser humano que não estão sendo consideradas… Porque, quando nos voltamos contra a sexualidade, sem perceber estamos nos voltando contra tudo que ela representa, como a vida, o prazer, a potência, a conexão e o amor!
Wilhelm Reich, psiquiatra austríaco e precursor do movimento por uma cultura sexual positiva, afirmou em seu livro “A função do orgasmo”, ainda em 1927: “As enfermidades psíquicas são consequência do caos sexual da sociedade (…) o homem é a única espécie biológica que destruiu a sua própria função sexual natural e está doente em consequência disso.”
O ser humano, nesta perspectiva, teria se voltado contra seu próprio corpo, já que a sexualidade é uma função biológica fundante do organismo, de onde todos se originaram. Reich considerava tão importante que as pessoas pudessem explorar de forma positiva sua sexualidade que ele advogava que deveria haver leis para “salvaguardar a felicidade sexual das pessoas”. Em sua visão, a possibilidade de satisfação sexual plena seria a melhor proteção contra o desenvolvimento dos distúrbios psicológicos na população.
Cabe a pergunta, então: até que ponto é possível ter uma satisfação sexual plena carregando tanto antagonismo à sexualidade em nossas mentes? Como desenvolver plenamente nosso potencial sexual se desde a infância a mensagem que recebemos é de que sexo é uma coisa feia, suja, vergonhosa, violenta e pecaminosa? E o que podemos fazer para mudar essa situação?
Sabemos que a criancinha não nasce com nenhum antagonismo ao seu corpo ou à sua sexualidade. Tanto é que ela espontaneamente aprende a se masturbar e faz isso sem nenhum constrangimento, se divertindo muito com o prazer e o bem-estar que o toque proporciona. Em que momento será que essa situação se transforma e ela passa a ficar antagônica ao seu próprio funcionamento corporal?
Foi no intuito de se modificar esse estado de coisas que surgiu o movimento global sex-positivity, que aspira ao desenvolvimento de uma relação mais positiva com a sexualidade. Cabe a cada um de nós abraçar essa causa e contribuir para a criação de uma cultura que acolha e honre a sexualidade como uma parte fundamentalmente positiva, natural e gratificante da experiência humana.
Conheça a Sex Positive World
Sex Positive World é uma organização sem fins lucrativos comprometida com a mudança de ideias e valores sociais em torno da sexualidade por meio da educação e do empoderamento. Fundada em 2009 por Gabriella Cordova em Portland, nos Estados Unidos, é uma organização voluntária e conta hoje com quase 7.000 membros distribuídos por doze cidades e cinco países.
A Sex Positive World acredita que as pessoas de todos os sexos anseiam por mais amor, conexão, toque e prazer em suas vidas. Porém, a cultura de negatividade atrelada ao sexo vem sistematicamente roubando das pessoas maneiras seguras e saudáveis de atender a essas necessidades — e há muito trabalho a ser feito para recuperar a sexualidade como algo belo e natural.
A organização está empenhada em mudar a forma como a sexualidade é abordada por culturas em todo o mundo e, como tal, vem se esforçando para aumentar o conhecimento e a compreensão dos efeitos prejudiciais da negatividade sexual e de como a sexualidade saudável pode produzir mudanças positivas na sociedade.
A Sex Positive World organiza grupos sociais que exploram o que significa incorporar a liberdade sexual como algo natural e saudável, onde o prazer é valorizado e compartilhado, com amor próprio, respeito e limites saudáveis. Todos os aspectos da sexualidade humana são contemplados, incluindo gênero e orientação sexual (LGBTQIA), estilos de relacionamento (monogamia, poliamor etc.) e expressões sexuais (tantra, bdsm, swing etc.).
Sua abordagem da sexualidade é focada no consentimento, no respeito aos limites, em como ter uma conversa sobre sexo seguro, positividade corporal, toque saudável, saúde sexual, liberdade reprodutiva, direitos trans, educação sexual positiva e muito mais. Os eventos organizados pela Sex Positive World incluem necessariamente: segurança, diversão, consentimento, respeito aos limites, confidencialidade, inclusão e sensualidade.
Sexualidade nos tempos modernos: alguns desafios
Muitos são os desafios a serem superados para que possamos viver uma sexualidade natural e verdadeiramente satisfatória.
Se é verdade que vivemos em tempos mais liberais, não podemos dizer que somos necessariamente mais satisfeitos sexualmente. Nunca fomos tão livres no sexo como somos hoje, mas isso não é garantia de satisfação se não soubermos como usar essa liberdade a nosso favor.
Este é um dos paradoxos dos nossos tempos. Como muito bem destacou Alexander Lowen em seu livro “Amor e Orgasmo”, sofisticação sexual não quer dizer maturidade sexual. Ou seja, não adianta liberdade se não houver maturidade para explorar essa liberdade. Vejamos, então, apenas alguns dos desafios que temos que superar para uma vivência mais plena da sexualidade nos tempos modernos.
Narcisismo egóico
Para começar, na cultura narcísica em que vivemos atualmente, a relação que temos com o corpo é muito mais uma relação de poder do que de prazer. O individualismo e a cultura competitiva são marcas bem distintivas dos nossos tempos. Vivemos dentro de um paradigma de controle em detrimento da entrega; do poder em detrimento do prazer.
A experiência sexual também é, muitas vezes, mais regulada pela necessidade de mostrar desempenho do que propriamente pelo prazer que ela produz. O objetivo passa a ser impressionar o outro e não experimentar o prazer mútuo. A gratificação é mais do ego do que do corpo. Assim, vemos que frequentemente o sexo é utilizado para contar vantagem aos outros e reafirmar a nossa superioridade, como em algum tipo de competição, para mostrar que somos “bom de cama”. Mas esse “bom de cama” normalmente é bom para impressionar o outro, não tem nada a ver com ser bom pra si! O prazer realmente parece ficar em segundo plano nestes casos. Como ressalta Lowen: “Para o ego neurótico, o sexo é visto como meio de conquista e glorificação egóica.”
Além disso, para uma grande parte das pessoas, existe uma profunda necessidade de ser desejado pelos outros. Talvez nunca na história humana tenha sido feito tanto esforço para ficar bonito, jovem, sarado, enfim: desejável. Academia, cremes, plásticas, roupas etc. Por que queremos tanto ser desejados? Será que estamos usando a atração sexual como uma forma de compensar nosso senso de menos-valia e nossa baixa autoestima, ou seja, para reafirmar o nosso valor pessoal? Talvez, mais importante do que sermos tão desejados é nos tornarmos novamente seres desejantes, apropriados da força do nosso desejo!
Entorpecimento do corpo
Outro desafio não menos complexo é o de resgatarmos novamente a sensibilidade do corpo. De um modo geral, estamos muito anestesiados para as sensações do corpo. Novamente, o poder tem sido bem mais importante do que o prazer na nossa cultura. A aparência do corpo passou a ser mais importante do que as sensações que ele produz.
O ideal de corpo que trazemos conosco é o de um corpo “travado”, “durinho”, “rasgado”. Ora, quanto mais travado ou endurecido, mais tenso e menos relaxado. Quanto menos relaxamento, menos entrega, menos prazer. Quanto mais tenso, mais presa e superficial fica a respiração. Quanto menos respiramos, menos sentimos. E pra que sentir, afinal? Talvez já tenhamos esquecido deste aspecto mesmo…
Para aproveitarmos mais a vida sexual, é necessário sairmos da cabeça e nos voltarmos para o corpo, para a vida do corpo, para as sensações que ele nos traz. Afinal, o prazer reside no corpo e não na mente. Talvez devamos mesmo seguir a máxima de Fritz Perls: “perca a razão e recupere os sentidos”.
Wilhelm Reich, em seu livro “A Função do Orgasmo”, já nos ensinava que a experiência do orgasmo, para ser completa e satisfatória, pressupõe uma rendição do ego às sensações corporais. Entregar significa abrir mão do controle: o ego se rende ao corpo e às suas convulsões orgásticas. Mas o que mais vemos em nossa cultura é o oposto: o ego controlando o corpo. Então, se a pessoa não está excitada, ela usa um viagra para forçar o corpo a funcionar!
Desconexão afetiva
O sexo, por natureza, é uma experiência de intimidade: é quando chegamos mais próximo de alguém, onde literalmente nos desnudamos para si e para o outro. Para que essa intimidade possa acontecer em um nível mais profundo, é necessário que ela seja praticada nos nossos relacionamentos afetivos. É necessário que aos poucos vamos abandonando as máscaras e possamos aparecer como somos. A intimidade deve ser cultivada para que ela cresça, como tudo o mais.
Quando guardamos muitas coisas não ditas e emoções não expressas, ao longo do tempo isso vai criando uma espécie de barreira entre os parceiros, o que pode culminar em um verdadeiro divórcio emocional nos casais. Quando isso ocorre, a intimidade física pode até acontecer, mas dificilmente haverá um encontro mais inteiro, fazendo com que a sexualidade seja vivida de forma bastante rasa.
A verdade é que as relações nos dias de hoje são muito superficiais, um eterno baile de máscaras, mesmo dentro do casamento. Se não estivermos dispostos a nos desnudar por inteiro, tirar a roupa apenas não vai servir!
Conclusão
A pergunta que fica, então, é a seguinte: que convulsões existem em um corpo rígido? Como se entregar para o prazer se temos tanto medo de sentir? Quem está disposto a perder o controle e se render às sensações do corpo?
Com tudo isso, o sexo deixa de ser uma experiência de entrega, prazer e troca e passa a ser uma experiência de controle, tensão e competição. Mas, com tanta tensão, preocupação e competição, será que é possível realmente “gozar” de verdade?
É por tudo isso que precisamos, urgentemente, de uma cultura sexual positiva — uma cultura que acolha e honre a sexualidade como uma parte fundamentalmente positiva, natural e gratificante da experiência humana.