Regras e Combinados em um Relacionamento Não-monogâmico

Todo relacionamento envolve algum tipo de negociação. Nos relacionamentos não-monogâmicos, essa negociação se torna ainda mais crucial, pois não costumamos ter referências sobre como se relacionar dessa forma. Criados em uma cultura que prega a monogamia como padrão, ficamos sem referência quando partimos para um modelo distinto do tradicional. Isso implica que cada detalhe deve ser negociado e discutido até se chegar a um modelo de relação que atenda às necessidades e anseios de ambos.

Por que combinados importam

Combinados ajudam as pessoas a se sentirem seguras e a terem alguma previsibilidade. Nas relações não-monogâmicas, servem para que o casal defina o que busca com a abertura do relacionamento, o que exatamente quer experimentar e — não menos importante — o que não quer. Estabelecer combinados tem a ver com respeitar os limites de cada um.

Para isso, é fundamental que ambos tenham voz na hora de estabelecer os combinados. Não pode haver coerção ou ameaça: deve ser sempre uma negociação amorosa, em que os dois sintam que suas necessidades e limites foram levados em consideração. O timing também importa — dê preferência a iniciar essa conversa quando o casal estiver bem e equilibrado. E lembre-se: o melhor é ir devagar, avançando gradativamente, sem pressa.

O ideal é que nenhum combinado fique implícito. Quanto mais explícito, melhor — podem até ser feitos por escrito. Mas, mesmo com o máximo de clareza, vão surgir questões não antecipadas, e é preciso haver espaço para acomodar novas situações, rediscutindo os acordos se for o caso. Combinados devem ser dinâmicos, assim como são as pessoas e a vida.

Perguntas pra definir juntos

O contorno geral da relação:

  • Queremos ter só variedade sexual, ou afetiva também?
  • Sairemos sempre juntos ou pretendemos sair sozinhos também?
  • Vai ser swing, relação aberta, poliamor — ou uma combinação dos três?
  • O que pretendemos experimentar com outras pessoas? Só sexo, sem romance? Só amassos e beijo?
  • O sexo tem que ser sempre com camisinha? Vale tudo, incluindo sexo oral e anal?
  • Encontros não sexuais — cinema, almoço — estão valendo? E trocar mensagens durante o dia?
  • Com quem pretendemos sair? Só desconhecidos? Amigos podem? E pessoas do trabalho? Homens, mulheres, casais?

Quando, onde e com que frequência:

  • Pode sair sempre que quiser, ou fica limitado a alguns dias da semana ou do mês?
  • Só quando estiver fora da cidade? Só quando o outro já tiver compromisso? Só quando a relação estiver bem?
  • Somente lugares públicos? Pode trazer alguém para casa? Pode transar na cama do casal? Pode dormir fora?

Outros detalhes importantes:

  • Pode sair mais de uma vez com a mesma pessoa?
  • Compartilhamos as experiências um com o outro ou cada um guarda pra si?
  • Tem que avisar previamente? O outro vai ter poder de veto?
  • Um pode ter acesso à comunicação do parceiro com as pessoas com quem sai?
  • Pode fazer perfil em aplicativos de paquera?

De regras rígidas ao diálogo constante

Por mais que combinados sejam relevantes, é preciso deixar espaço para a experiência ir se descortinando naturalmente, com cada um descobrindo o que faz sentido para si à medida que as vivências acontecem. Dependendo de como é conduzido, o modelo de regras pode enrijecer a experiência — a realidade é dinâmica, e não sabemos como vamos nos sentir até estarmos em contato com a vivência concreta.

Talvez mais importante do que estabelecer regras rígidas seja a capacidade de manter uma comunicação aberta e continuada sobre tudo o que for emergindo. Em vez de reduzir os combinados a uma lista de permissões e proibições, faz mais sentido pensá-los como diretrizes: uma direção para onde o casal quer caminhar, um alinhamento de intenções e expectativas.

Na prática, o que vemos é os casais iniciarem a relação aberta com muitas regras rígidas e, gradativamente, se moverem para um modelo mais fluido — com menos regras e mais diálogo constante. Nessa evolução natural, cada parceiro ganha cada vez mais autonomia para escolher as experiências que gostaria de ter, e a negociação passa a recair mais sobre como conduzir essas vivências, e não sobre o que se está autorizado ou não a fazer.

O controle e a proibição são uma espécie de paliativo: só aprendemos a sentir segurança através do controle, mas essa é uma segurança precária. A verdadeira segurança é aquela que emerge da força do vínculo. Quanto mais sólida é a conexão do casal e mais transparente é a comunicação, maiores são as chances de permanecerem juntos ao longo do tempo. É a intimidade que fortalece a relação — não as regras e normas.

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